A Criação do Mundo

No princípio havia o Vazio e nele morava Omnia, o Primordial.

Por noventa mil anos foi assim, até Omnia sonhar que havia um Espaço, e que nele era possível reproduzir-se. E tendo em sonho habitado o Espaço, Omnia se dividiu e originou Lun, o Masculino, e Nan, o Feminino. E eles eram a um só tempo pai, mãe e irmãos. Contudo, sendo um a metade faltante do outro, tornaram-se marido e mulher.

De Lun e Nan nasceram dois pares de gêmeos: Lux, a Claridade e Tenris, o Escuro; Boni, a Bondade e Malum, o Mau. Eram irmãos e consortes, pois apenas juntos estavam completos.

Aconteceu, entretanto, que a gravidez de Nan não cessou com aqueles nascimentos. Por noventa dias a Deusa continuou gestando. E então nos deu Deimis.

À semelhança de Omnia, Deimis não era macho, nem fêmea, nem bom, nem mau.

Lux e Boni auxiliavam a mãe em tarefas domésticas. Tenris e Malum ajudavam o pai em seus negócios. Apenas o Andrógino estava em todos os lugares, e se ocupava de todas as atividades.

Um dia, estando Deimis com Lux a preparar refeições, se encantou com a beleza da irmã, tomando-a nos braços. A Deusa não resistiu, e se entregou aos carinhos amorosos. Depois, temendo a fúria de Tenris, ocultaram-se nos Confins do Espaço.

O Deus Escuro, preocupado com o desaparecimento da esposa, procurou em todos os lugares, até surpreender os amantes.

— Vem, Tenris — falou sedutoramente Deimis, estendendo-lhe os braços e mostrando toda a beleza de seu corpo andrógino — posso amá-lo como amo Lux. Viveremos os três em perfeita união, e verás que nossa relação será mais profunda. Acolhe-me em teus braços, ajuda a aplacar a solidão terrível que corrói minha alma.

Tenris, a quem apenas a claridade de Lux dava forma, estava feliz por reencontrar a esposa:

— O que desejas, Lux?

— Deimis tem muito a ofertar, amado esposo. Junte-se a nós, experimenta nossas alegrias. O amor nunca é nocivo. Amemo-nos completamente uns aos outros, e jamais nos faltará deleite ou contentamento.

Ouvindo as palavras da esposa, Tenris a tomou em um de seus braços, e com o outro envolveu Deimis, e amaram-se assim por três mil anos. Lun e Nan abençoaram aquela união, e a alegria deles era a felicidade de todos.

Todos, menos Malum.

— É vergonhoso o que eles fazem — cochichou para a esposa.

— Não é como dizes, Malum. Deimis é o fiel da balança que dá a medida exata entre os outros dois. O que há de errado na felicidade deles?

— Medida exata? E precisamos disso? Somos perfeitos no par que nos completa. Somos diretos, retos, simples. Deimis é uma aberração!

— Sendo Deimis a imagem e semelhança de Omnia, que a tudo cria e sonha, como pode ser uma aberração?

E Malum, não encontrando resposta, afastou-se da esposa. Furioso, voou em círculos pelo Vazio e, eis que em um desses giros, vislumbrou Deimis apreciando o Silêncio e a companhia de si mesmo.

— Então podes amar igualmente o macho e a fêmea, Deimis?

— Sendo eu o Indefinido, compreendo e amo tudo o que é definido e limitado em sua natureza.

— E por que não ama igualmente todos os seus irmãos? Por que apenas a Lux e Tenris dá a honra de seu amor completo?

— Devoto a todos o mesmo puro e fraterno amor, Malum. Acontece que eu, por não ter um complemento natural, sentia-me só. Lux e Tenris aplacam a minha dor.

— Só? Não és completo? O que mais poderias desejar?

— Abraços e afagos de outro ser que não eu.

— E se eu disser que sinto por ti amor maior do que tenho por todos os nossos irmãos? Se confessar que em segredo sempre desejei abraçar-te e beijar-te?

— Direi que és um mentiroso, pois nunca sequer me olhaste. O que tens é inveja.

— Nunca te olhei? Tu é que nunca me destes atenção.

— Afasta-te, invejoso!

— Fica comigo, Andrógino. Quero provar esse sabor dúbio que inebria Luz e Sombra.

— Solta-me!

Deimis gritou e correu. Mas seu pulso esquerdo ficou preso nas mãos de Malum, que era maior e mais forte, logrando jogá-los ao chão. O corpo andrógino foi ultrajado de todas as formas possíveis. Cego em desejo e ódio, Malum dilacerou o ser mais belo que já existiu. Em seguida, para ocultar seu crime, atirou no Vazio os pedaços do corpo divino.

Omnia, atormentado pelo próprio pesadelo, e tendo por Deimis um amor visceral, não permitiu que seu corpo perecesse no Nada. Animados por um sopro divino, os pedaços encontraram novas formas: a cabeça se transformou em Céu. O tronco deu origem ao Abismo Infernal. Os pulmões de Deimis criaram a Atmosfera. Seu coração foi moldado como uma bola uniforme e se transformou em Core, o planeta pulsante. A pele de Deimis revestiu o planeta e se transformou em terra. Das lágrimas do Andrógino nasceram os rios e o oceano. Seus testículos e ovários deram  origem aos animais. Com os pelos pubianos, Omnia deu vida à Floresta Ancestral.

Os braços e as pernas de Deimis, ensanguentados por causa da luta, foram postos uns sobre os outros, para que os seres recém-nascidos tivessem memória dos horrores que a luta provoca. Assim surgiu o Monte Vermelho.

Ainda agitado em seu sonho, Omnia perguntou a Lun: onde está Deimis? O pai do Andrógino, sem saber a resposta, interrogou a esposa, que também não sabia. Perguntaram então a Tenris e Boni, que igualmente ignoravam.

Chegando até Malum, perguntaram-lhe o paradeiro de Deimis. Assim como os irmãos, o Deus alegou ignorância. Mas Lux, que assistira o fim da batalha, iluminou o Espaço, e os pais reconheceram o corpo dilacerado. Horrorizado, Lun encarcerou Malum no Abismo Infernal. Depois, arrastou esse inferno para baixo de toda a Criação, e deu ordem a Tenris de ocultar as estradas para lá. Lux foi proibida de descer aos abismos, para que Malum nunca tenha luz em seus olhos. Os outros Deuses ocuparam o Céu, de onde velam o corpo de Deimis.

 

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Olhos Negros

O vazio é úmido.

E cheira a terra molhada. Notou isso dias antes, no escuro do apartamento, quando o nariz farejou chuva na secura da cidade. Agora, andando por terrenos abandonados, o cheiro entrava pelos poros e tudo estava igual, dentro e fora.

Toda a paisagem era de barro vermelho molhado, uns verdes respingados aqui e ali. O temporal do fim de tarde ainda estava vivo nas marcas de gotas pelo chão. Em passos incertos, escorregadios, aproximou-se de um mar de lama. Identificava-se, de certa maneira, com aquela pasta estranha. Algo dentro de si era assim, uma argila esperando que lhe deem forma.

Enfiou a mão no charco e mexeu lentamente os dedos. Se pudesse remodelaria sua vida. Mas os olhos muito negros dela queimavam suas certezas. Ainda que fosse possível, não saberia o que fazer. Que nova forma assumir?

Seus joelhos fraquejaram, o corpo pousando surdo no barro. Ergueu a mão e ficou olhando:  a lama espessa agarrou-se à pele, depois escorreu lentamente.

Queria perder-se nela. Mergulhar em seu corpo como se fosse um lago…

… admitiu isso com um ardor no estômago…

Puxou a terra molhada pelo braço, divertindo-se com o toque áspero, fresco, quase sensual. Deitou um pouco mais o corpo, sentiu-se escorrendo como a lama, e não se importou quando os cabelos tocaram o chão, e rolou quase alegre para os lados, virando terra a cada novo giro. Queria sentir a vida em suas últimas consequências, nem que fosse só uma vez.

Gosto do encanto que ela me causa! Dos sonhos que provoca em mim…

… mas…

… por quê?

…o que há em você que eu quero absorver? Por que meus olhos não sabem como te largar? Se eu decorar teus trejeitos eu me torno uma pessoa melhor? E se eu souber teu sabor, torno-me mais real ?

Esticou os braços e chapinhou na lama, sentindo-a espirrar para todos os lados… relaxou os músculos, sentiu-se afundar… enraizar…

Por que eu te sei só de te olhar? E por que, te sabendo, reconheço-me nos teus neurônios, mesmo havendo todo um abismo de diferenças entre nós? O que, exatamente, eu amo em você?

O que em você é igual a mim?

ou…

o que você é – e eu nunca vou ser?



(O vazio é úmido. E cheira a terra molhada.)

Fugindo do marasmo, rolou desnorteadamente pelo barro, parou quando as forças acabaram, a cara metida na terra, o ar faltando mais do que de costume. Sentiu um frescor mordiscando suas costas e então os pingos tamborilaram pelo mato. Girou mais uma vez e recebeu um vento forte pelas narinas. A chuva recomeçou, mais forte do que antes, os pingos grossos batendo em seu rosto, lavando a terra que lavou seu corpo, o gosto de lama entrando pela boca. Sentiu-se estremecer e sufocar, a água escorrendo pela cara, mas não conseguia saber se era a chuva ou se, finalmente, chorava. O peito abria-se numa flor agoniada, a voz dela pastosamente grudada nos ouvidos… a voz que, mesmo lhe dizendo coisas amargas, era aveludada.

Como entender a imprevisibilidade do que sentia? Vinha por aí a origem de sua angústia. Dessas coisas que acontecem com a gente e perdemos o leme. Ela chegou e foi lhe revirando a pele… Quando caiu em si já era tarde: quarenta graus de amor lhe consumiam a razão.

E, mais estranho que a febre, era ter o medo como um sintoma primário, o caroço que externava a doença prenunciada. Medo de que ela soubesse. Medo do que pensaria. Medo de que todos soubessem. Medo do que pensariam.

Medo.

.
.
.

(O vazio é úmido. E cheira a terra molhada.)

.
.
.

E se eu tivesse coragem, soluçou junto de um trovão, a chuva dando-lhe tapas, dando-lhe tapas… (Afogava-se por não se compreender. E, no fundo, nutria um desejo esquisito: ser simples como um pé de manga).

O corpo abandonado ao chão, ao mal tempo, afundando, afundando. Por um segundo compreendeu: é preciso pular no charco, e rolar na lama, inundar-se de chuva, amassar o barro, sujar-se de vida, pra ser alguém inteiro!

A chuva, contudo, não se apieda: castiga, nodosa, dolorida. Aos poucos tudo é água, chuva, barro. Já não sabe o que é lama, o que é seu corpo. É como se as larvas que devoram a terra nascessem de sua alma. Sim, é assim: num inexplicável encanto, raízes saem de seus dedos e bebem a terra. Aos poucos, sua pele traveste-se em casca amadeirada. E em minutos são tantas as flores que brotam de sua carne, sua vida virando um jardim. O corpo mergulhado na lama, misturado à lama. Já não é mais ar o que respira, é de barro que o pulmão se alimenta. Corpo virando argila, cristalizando na terra, sufocado. Não cabe mais em si, não sabe mais de si. Nada mais sente, nada enxerga. Apenas o negro dos olhos dela.

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Estrambólico

Estranho é, a meu ver, quem pense haver alguém estranho.

Como se entre o preto e o branco só pudéssemos pensar em tons de cinzas, mas eis que surge ali um castanho. E fica tu perdido na explicação científica do porque está errado aquele tom estranho. É um invasor. Um disco voador. Um acidente gráfico. Não pode! Pinta de preto. Pinta de branco. Deixe-o no tom. Que tom? O tom certo. Qual certo? Aquele que completa a matiz entre o preto e o branco. Ou meta-o logo em um dos extremos. Mas não o deixe ser assim, assumidamente, nem preto nem branco nem cinza. Castanho. Meu deus, que estranho! Como é que foi surgir bem aí? E vem então a junta médica – no caso a junta de gráficos, designers e outros especialistas – até que alguém diz é só um pingo de tinta. Pinte-o de preto, pinte-o de branco, não insista. Aqui não pode haver castanho.

Então você, sujeito estranho, que normatiza, revisa e nunca improvisa, perdeu a pista:

olhando de perto não era pingo, não era tinta, era resto de pizza!

De que importa como foi parar aí? Era resto de pizza. Sabor e vida na tua escala de cinza. Mas que maçada tua ideia pré-concebida!  Agora é tarde, estranho, você apagou o sabor da vida.

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Aventura – um conto de Ano Novo

Todos os dias faça alguma coisa de que você tem medo
Eleanor Roosevelt

— Atravessar o Hansal não é seguro — a voz dele soou tão baixo que foi preciso adivinhar as palavras perdidas no meio do vento.

— Como você sabe? — Ela olhou com firmeza seu interlocutor. O rapaz ficou pensando se haveria naquele brilho um quê de deboche. Por fim deu de ombros e olhou em volta. O vento levantava a areia do deserto em espirais douradas.

— Nunca ninguém foi lá — respondeu no seu tom tímido.

— Por isso mesmo — a garota contestou com vigor. A resposta dele reforçava sua tese.

— É perigoso, Jana, deixe disso!

O vento parou por um breve instante, como se quisesse reforçar as palavras de seu irmão. A pausa breve foi o suficiente para o sol deixar marcas na pele dos dois.

— Quantas colheitas nossa gente já perdeu, Raul?

— Como vou saber? Sempre que as chuvas atrasam a gente perde alguma coisa.

— Não perderíamos, se tivéssemos um caminho mais rápido para Myr…

— Mas não temos. Vamos adiante, Jana. Em breve o escuro chega e precisamos estar em local seguro.

O horizonte era quase tão amarelo quanto o sol. Mas um pouco para a esquerda havia uma sombra que, desde a infância, Jana se perguntava o que seria. Fazia-lhe pensar naqueles lugares assombreados de que falavam nas lendas. Saqlr, era como os antigos chamavam aquilo, mas todo mundo dizia que só existiam nas lendas.

— As tangerinas estão estragando — ela falou e puxou para si o pequeno burrico em que os frutos se abarrotavam.

— Você acha melhor separarmos o que não vai resistir à viagem?

— Acho que devemos separar tudo o que está estragando.

— Você tem razão. Vamos viajar mais rápido se deixarmos esse peso para trás. As maçãs também não me parecem muito firmes. — Puxou os sacos de pano em que os frutos estavam armazenados. Jana se apressou em tirá-los das mãos do irmão e os amarrou no burrico com as tangerinas. Inspecionou outros sacos e não encontrou nada suspeito.

— Sim, é melhor assim. — Jana saltou em seu pequeno cavalo, trazendo o burro pelas rédeas. Raul foi buscar sua montaria que estava descansando debaixo de uma árvore.

— Vamos embora — afirmou o irmão enquanto soltava seu cavalo — quanto mais tempo perdemos, mais demora para voltarmos.

— Cuide-se, Raul — a garota gritou, atiçando seu animal, e uma nuvem de areia ergueu-se atrás dela.

— Ohw, espere! Jana, a onde… O que está fazendo?

O cavalo sumiu nos novelos de areia embaralhados pelo vento. Raul correu alguns metros, aos gritos, mas retornou quando a visão ficou turva. Sua montaria, assustada com o barulho, disparou na direção da aldeia Karryr, de onde saíram no início da manhã. Apavorado, o rapaz correu atrás. Como sobreviveria se não resgatasse seu cavalo? Como chegaria a Shaq’ai sem a irmã? E o que diria a seus pais, quando finalmente retornasse para casa?

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Em poucos metros Jana se arrependeu do que fez. A areia voava em torno dela de tal maneira que era impossível enxergar qualquer coisa. Cobriu nariz e boca com o véu, mas não tinha o que fazer com os olhos açoitados pelos grãos de areia. Tossiu, enroscou-se no pescoço do cavalo, que estava tão assustado quanto ela, e por pouco não deixou o burrico escapar.

Era mesmo impossível chegar a Myr indo pelo Hansal? O deserto era, de fato, um inimigo invencível? E todas as lendas sobre pessoas que chegaram à sua aldeia vindas do deserto? Eram mentiras? Histórias inventadas para entreter as crianças, como sua mãe dizia?

Que idiota eu fui! Raul vai querer me matar! Deve estar muito assustado. Por que fiz isso?

Deu meia volta com o cavalo. Quando alcançasse a estrada incitaria os animais para a corrida. Receberia uma enorme reprimenda quando o encontrasse, mas bem que merecia! Quase podia ouvir a voz irada do garoto, dois anos mais velho do que ela, e talvez por isso tão mais ajuizado. O cavalo avançava incerto, já que não era possível ver nada além do próprio focinho, e deve ter sido pela marcha reduzida que a menina custou a entender que estava perdida. Olhou a toda volta sem conseguir enxergar qualquer coisa. Isso era muito estranho! Avançou em uma linha reta, arrependeu-se, virou para o lado de onde viera e andou reto novamente. Como podia acontecer de não chegar à estrada?

Tomou um gole de água de seu pequeno cantil. A maioria das provisões estavam com Raul. Não duraria muito tempo se não encontrasse saída.

Não se desespere, tem que haver uma solução — consolou-se, respirando fundo — Desespero não ajuda em nada!

Pensou em apear, deixar os animais descansarem, mas sem um lugar em que se sentissem seguros isso seria pouco efetivo. Com dificuldade tomou mais um gole. Nada era simples naquele inferno de areia revolta. Não havia nenhuma história de alguém de seu povo atravessando o deserto. Sequer havia história de quem tivesse tentado. Isso era o mais estranho. Ninguém mais sentira esse impulso de curiosidade, que a consumia desde a infância?

Bem, agora haverá o relato de alguém que sumiu no deserto… provavelmente evitará que mais alguém tente essa idiotice — pensou num suspiro.

A areia insistia em bater em tudo, irritando os animais que, ao contrário dela, não tinham proteção de roupas por todo o corpo. Deu tapinhas leves no pescoço de Zon e disse-lhe palavras suaves no ouvido. O animal relinchou, bateu uma pata traseira duas vezes no chão enquanto o burrico resfolegava assustado. Relaxou as pernas no lombo do animal esperando transmitir confiança à montaria. Encurtou a rédea do burro, trazendo para perto de si. Precisava encontrar um jeito de voltar.

Certo, Jana, isso é diferente de tudo o que você já fez na vida. Mas é apenas isso: diferente. Acalme-se. Pense. Esse lugar é diferente dos que você conhece, mas é apenas um lugar. Areia e vento. Isso não pode ser tão mortalmente perigoso!

Será?

Será que não, mesmo?

.
.
.

Mais uma vez, pensou em descer de sua montaria. A ideia mórbida de aliviar o peso dos animais para que tivessem uma morte menos dolorosa passou como uma nuvem. Forçou seus olhos contra o açoite de vento e poeira e não enxergou nada. Deu mais um gole e sacudiu o cantil: a água não duraria muito.

Pulou para o chão, sem pensar muito. Manteve as duas rédeas firmes no pulso. Se os animais debandassem nenhum dos três sobreviveria ao deserto. Sentia vontade de chorar.

Outra vez Zon bateu a pata traseira contra a areia, impaciente. Uma nuvenzinha subiu do solo, chamando a atenção de Jana. A menina olhou incrédula para o chão e depois se deitou. Não era possível!

Ficou em pé num salto, girou o corpo olhando ao redor. A areia se agitava por todos os lados, mas não no chão!

Deitou novamente. Enxergou um chão dourado estendendo-se ao infinito. Se olhasse com calma havia de encontrar a estrada! Moveu a cabeça para todas as direções e achou ver algo mais escuro um pouco para trás. Forçou o pescoço ao máximo, depois ajeitou o tronco para o lado e… sim! Aquela sombra que sempre divisava da estrada! Era ela, e estava próxima!

Caminhou levando os animais pela guia. Abaixou-se em duas ocasiões apenas para se certificar de que continuava na direção certa. Em poucos minutos seus pés estavam sobre pequenas pedras cinzentas semelhantes aos seixos dos rios. Apanhou uma das pedras: úmida. Apertou-a entre os dedos e avançou. Seus pés deslizaram nas pedras e Jana teve que se esforçar para reencontrar o equilíbrio, sem perder as rédeas dos animais que, assustados, resfolegavam e tentavam voltar. Firmou-se naquele chão que descia ligeiro, pedrinhas despencando pelo barranco. Agora podia ouvir o som de água e não havia dúvida de que encontrara um Saqlr! Cautelosamente deu um passo adiante, e depois outro e bastou mais um terceiro para que o som do vento desaparecesse e o mais lindo cenário lhe fosse oferecido à vista. Árvores, gramas, pássaros. Árvores, gramas e pássaros em uma quantidade superior a tudo o que já tinha visto na vida! Apressou-se a descer, tão rápido quanto aquele terreno incerto permitia, os animais remanchando no medo de uma queda qualquer. Mas chegaram os três intactos ao solo, um vale cerca de metro e meio abaixo do deserto.

A Desventura de Jana, foi como chamaram aquilo, e as futuras gerações ouvirão falar que era louca e que arriscou a vida de forma irresponsável. Mas depois de reabastecer o cantil com a mais cristalina das águas, Jana acompanhou as margens do rio em um terreno que se aprofundava até sumir sob a terra. O burburinho da correnteza guiou-a pelo grotão em uma caminhada leve e fresca. Parou uma vez para descansar e dar de beber aos animais. Recostou na rocha fresca, colheu alguns pequenos cogumelos que cresciam naquelas paragens.  Sentia-se revigorada e os animais também não demonstravam cansaço. Seguiram a jornada em ritmo acelerado, animados por uma energia encorajadora. Não demorou para que o terreno iniciasse uma lenta subida e, com uma suave curva à direita, o grotão se abriu em um pequeno bosque na fronteira de Myr.

O resto foi muito simples: vendeu os frutos e o burrico no comércio local, depois galopou pela estrada em busca do irmão. Encontrou-o ao entardecer, preparando o acampamento no local costumeiro. No dia seguinte venderam o pequeno estoque e voltaram a Shaq’ai, usando o grotão como passagem. O resultado é que estavam em casa na metade do tempo esperado, e refizeram a travessia já no dia seguinte, vendendo na cidade vizinha tudo o que estava fadado a perecer, se não fosse consumido pela comunidade.

Tendo aprendido com a irmã os segredos de atravessar o Hansal, Raul organizou expedições, tornou-se guia, enriqueceu a família com a ligeireza de suas vendas e com as taxas que cobrava para auxiliar outros comerciantes. A rota moderna entre Myr e Shaq’ai formou-se dessa maneira, a movimentada Janavia, que só se tornou realidade porque alguém ousou dar um passo além da fronteira conhecida.

Quanto a Jana, a menina se apartou da expedição na terceira vez em que atravessavam o deserto. Nunca mais foi vista, mas conta-se que até o fim de sua vida, Raul recebia estranhas mensagens nas noites de lua cheia, e ninguém na região do Kohn duvida que Jana, a Aventureira, vive para sempre.

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Um gesto de inconsciência

Meu emprego é bem simples. Ganho até que bem pra fazer pouca coisa. Não chega a ser um serviço chato ou intolerável e meus amigos me invejam. Mais do que isso, julgam-me tolo por detestar essa vida. Consigo ver a coisa pelos olhos deles e creio que tenham razão. Sou mesmo tolo, nasci com algum defeito de fabricação. Afinal, o único pré-requisito pra fazer o que faço é não pensar. Não ter opinião própria. Não levar em consideração coisas fúteis como ética, direito, justiça.

Meus colegas são todos muito bem-sucedidos. Cumprem à risca o que lhes ordenam, depois recebem o gordo salário e gastam nos mais modernos bens consumíveis. Quanto a mim, mal consigo fazer passar pela goela a comida do dia-a-dia. E hoje foi só mais um dia assim. Cheguei em casa desatando o nó da gravata, livrando-me da forca que impõe a minha mudez. Atirei longe os sapatos e, enquanto vivia a alegria de ter os pés livres, pensava nas amarras que havia posto em minha própria consciência. E tudo por causa do maldito dinheiro. Esquentei às pressas a comida congelada, e tão logo a pus nos lábios, tive um acesso de vômito. Os olhos lacrimejantes da menina suja e faminta grudaram novamente em mim.

Era apenas mais um serviço, como tantos outros: informar a uma família que seu benefício havia sido negado. Minha obrigação era entregar o comunicado e colher a assinatura do responsável. Na casa viviam uma mulher e três crianças, a mais velha não tendo mais do que cinco anos. A mulher lê o papel, balbucia alguma coisa, olha-me com os olhos cheios de lágrima e depois, como quem sabe que não há mais o que fazer, assina a folha e a devolve. Faço um movimento cortês com a cabeça, minha vergonha transparecendo no olhar. Tudo o que eu tinha que fazer era virar as costas e voltar ao departamento, exatamente como fizera nos últimos quinze anos. Era só virar, sair sem olhar para trás. Sem me deixar comover pelos olhos lacrimejantemente famintos das crianças.

Mas o sol estava forte, o calor sufocante, o ar deserticamente seco. A gravata agarrou-me pelo pescoço como mãos prontas para o assassinato. Não foi bondade, nem qualquer tipo de súbita consciência. Foi apenas um gesto reflexo, um instinto de viver, movido pela necessidade de respirar mais do que pela compaixão ou qualquer outro sentimento nobre. Mas ainda assim foi o gesto que alterou a ordem natural das coisas: rasguei em mil fragmentos o papel que a mulher me entregara, enquanto os olhos doídos da menina me imploravam um prato de comida. Abri minha carteira, tirei de lá tudo o que tinha, pouco menos de metade do salário recebido na véspera. Só as contas mais urgentes estavam pagas, mas sem nem pensar nisso entreguei tudo à mulher, com ordem expressa de que sumissem dali antes que os fiscais chegassem. Ela abriu a boca num rasgo que era muito mais espanto do que sorriso, depois assegurou que tinha parentes no interior e que nunca mais voltaria pra cá.

Agora olho os sapatos lançados longe e puxo com força a gravata, essa forca cotidiana. Estou livre. Amanhã haverá outro em meu lugar, sorridentemente distribuindo más notícias. Tudo continuará como sempre foi. A não ser por mim, que em breve estarei na lista dos que não tem o que comer. Mas pouco me importa. Por agora basta-me o ar fresco na traqueia.

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Justiça Torta

Desceu do ônibus um pouco antes do sol raiar, o bairro ainda mergulhado num silêncio sepulcral. Começou a andar devagar, o salto fazendo um barulho irritante na calçada velha. Daqui a pouco vai ter chefe de família engravatado indo para o trabalho e aquelas velhacas de véu a caminho da missa. Mas por enquanto a rua era só dela e dos vagabundos.

Andava sem medo, nada poderia lhe acontecer. Não havia mal maior do que sua vida. Há menos de uma hora saíra de um muquifo rançoso no centro da cidade. Bons tempos aqueles em que desfilava pelo calçadão de Copacabana… Mas agora, o peito já meio murcho, a bunda caindo, não dava mais pra escolher. Lembrou-se da ruiva novinha que chegou na Casa outro dia. Aquela estória de musculação dava certo mesmo? As menininhas viviam na academia… ela tinha dúvidas se compensava tanto esforço e suor. Então lembrou que tinha que tomar o coquetel quando chegasse em casa e deixou escapar um suspiro que subiu quente e aveludado como fumaça de cigarro. Talvez não tomasse. Talvez fosse melhor assim. Talvez não precisasse se preocupar com a bunda, enfim…

O barulho do salto ainda a irritava. Segurou-se num poste e arrancou as sandálias. Naquele vestidinho florido até parecia uma mulher descente, mas não precisava sofrer pra manter a pose. E não tinha vergonha de quem era. Voltava pra casa com um dinheiro minguado, mas ganho honestamente. Pensou em especial na última nota de cinquenta, largada com má vontade sobre o criado mudo. O cretino tinha deixado quase metade do que ela cobrava. Antigamente eles lhe davam até mais do que pedia. E eram mais gentis também. Agora só pegava esses porcos que achavam de fazer com ela o que tinham vontade, e depois atiravam o dinheiro na cara, como uma ofensa. Sentiam tesão até nisso, aqueles sujos que durante o dia se travestiam de pais de família. Como se isso fosse alguma grande coisa… pais de família… fugiu de casa com quatorze por causa dos abusos do seu. E passou a vida sendo abusada por outros.

Esse não era diferente. Arrancou sua roupa com violência, fez com ela tudo o que não tinha coragem de fazer com a esposa, aquela santa nojenta que, provavelmente, só abria as pernas pra fazer filho. E quando ela o lembrou da camisinha o calhorda riu, apertou seu pescoço até quase sufocar e meteu fundo. Gonorreia, herpes, cancro mole… já devia ter pego todas as doenças venéreas de nojentos como esse. Todos se achando super-homens, alguns felizes em lhe dar alguma doença de presente.
Sorriu maliciosamente, pensando com nojo no imbecil sobre ela, resfolegando e suando como um animal. Quem disse que essa vida era fácil? Mas agora até que tinha um lado bom. E ela nem tinha culpa, o chauvinista não se preveniu porque não quis. Ultimamente era essa a sua vingança. Esse o prazer que a mantinha. Antes até pensava em aposentadoria, mas parar justo agora, quando finalmente se divertia? Não. A justiça sempre foi uma coisa muito torta, pensou. Agora eu distribuo a minha, sussurrou entre dentes enquanto apertava carinhosamente o ventre, pensando no vírus com o carinho de quem espera um filho.

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Raimundo e João

Raimundo chegou na cidade faz tempo. Pelas contas dele. No calendário, tem só dois anos. Mas parece uma eternidade. E o pior é que ele não se habitua. Veio pelas mãos de Donato, amigo de infância que narrava as maravilhas do sul. Mas Donato esqueceu de dizer que aqui faz frio, que as distâncias parecem infinitas e que as pessoas nunca têm tempo.

Amizade às vezes pode ser uma coisa estranha. As almas se correspondem sem motivo, a vida não liga a mínima pra isso, e a gente fica no meio. Foi assim com Donato e Raimundo, que dividiram a juventude e depois seguiram outros rumos. Mas sentiam falta dos risos bêbados e dos choros loucos. E se Raimundo estivesse aqui, o que diria? Se fosse o Donato, ele me entenderia…

Junte a isso o sonho de enfim utilizar seu suado diploma, ganhar algo que dê pra ajudar os pais velhos, e eis Raimundo aqui. Agora arrasta seus passos apressados em frente ao Conjunto Nacional. Ignora o caminhão que vem do Paraíso e acabou de entrar na Paulista.

São dois anos de angústia e solidão. Dois anos de dúvida: e se eu não tivesse dado ouvidos ao Donato? Raimundo atravessa tropegamente a Augusta. Sete horas de uma manhã muito fria. O sol aparece sobre os edifícios, o céu é de um azul-sujo que sempre lhe parece estranho. A luz é fria como o vento, e ele ainda estremece. Não se habitua com o inverno. (E a vida hoje em dia não é muito mais do que isso…)

Estanca um pouco depois da Bela Cintra, junta-se à multidão encasacada que aguarda o sinal de pedestres. Nos primeiros dias ele e Donato riram muito. E se viam todos os dias. Depois todos os fins de semana.

Depois…

… Mudamos? ou…

… nunca fomos muito mais que companheiros de farra …

será isso, afinal?

Donato tinha sempre uma desculpa: estou sem tempo, excesso de trabalho; estou cansado, quem sabe amanhã; Ana quer que eu leve as crianças ao parque, depois te ligo.

E não ligou. Nem pra saber se ele precisava de alguma coisa. Nunca mais lhe perguntou por suas angústias, como era hábito em tempos idos. Não se interessou quando Raimundo lhe disse o quanto estranhava a cidade, o desejo de voltar para o Norte. E apenas deu de ombros quando o amigo comentou de mais uma recusa de currículo. Da última vez que se falaram, Raimundo contou que estava juntando uns trocados, guardava num pote tudo o que conseguia. Ia comprar passagem de volta. Donato desejou boa viagem.

O sinal não abre nunca, na boca Raimundo sente o gosto da fome. Avexado como nunca esteve, nem mesmo no Nordeste. Vai doar sangue em troca de um sanduíche. No mais, voltar pra casa talvez resolva…

A culpa é do Donato, rumina, balançando as pernas, animal encurralado em cercas invisíveis (esse sinal que não abre!), a lâmina fria do vento cortando a pele, fatiando o coração angustiado.

Mas lá vem o caminhão. Seu motorista, João, ainda traz na garganta o ardor de um gole de cachaça. O corpo moído da noite ao volante, quase sem pausas. Os olhos emaranhados pela mistura de sono e rebite. Falta tão pouco que já vê a casa sorrindo. Pressente o sabor do bolo de milho recém-assado e das carícias da Nega Flor, ela que faz essa vida louca valer a pena. A Paulista é só mais um corredor, a última passagem antes dos dias de descanso. Férias!!! João não se agüenta de alegria! Passa marcha como quem compõe uma música, acelera como se ouvisse rock. Não liga para o sol que bate no olho, não repara no semáforo fechado. Quer chegar em casa e nos braços de sua nega.

O sinal de pedestres abre. O sol frio corta os olhos, Raimundo não enxerga um palmo. Vai no movimento da multidão, os pés encostando no asfalto. Uma mulher grita e o livra das mágoas que rumina. Olha assustado e só vê a boca metálica, já em cima, pronta para a mordida.

A fome não é mais problema, Raimundo.

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