Um gesto de inconsciência

Meu emprego é bem simples. Ganho até que bem pra fazer pouca coisa. Não chega a ser um serviço chato ou intolerável e meus amigos me invejam. Mais do que isso, julgam-me tolo por detestar essa vida. Consigo ver a coisa pelos olhos deles e creio que tenham razão. Sou mesmo tolo, nasci com algum defeito de fabricação. Afinal, o único pré-requisito pra fazer o que faço é não pensar. Não ter opinião própria. Não levar em consideração coisas fúteis como ética, direito, justiça.

Meus colegas são todos muito bem-sucedidos. Cumprem à risca o que lhes ordenam, depois recebem o gordo salário e gastam nos mais modernos bens consumíveis. Quanto a mim, mal consigo fazer passar pela goela a comida do dia-a-dia. E hoje foi só mais um dia assim. Cheguei em casa desatando o nó da gravata, livrando-me da forca que impõe a minha mudez. Atirei longe os sapatos e, enquanto vivia a alegria de ter os pés livres, pensava nas amarras que havia posto em minha própria consciência. E tudo por causa do maldito dinheiro. Esquentei às pressas a comida congelada, e tão logo a pus nos lábios, tive um acesso de vômito. Os olhos lacrimejantes da menina suja e faminta grudaram novamente em mim.

Era apenas mais um serviço, como tantos outros: informar a uma família que seu benefício havia sido negado. Minha obrigação era entregar o comunicado e colher a assinatura do responsável. Na casa viviam uma mulher e três crianças, a mais velha não tendo mais do que cinco anos. A mulher lê o papel, balbucia alguma coisa, olha-me com os olhos cheios de lágrima e depois, como quem sabe que não há mais o que fazer, assina a folha e a devolve. Faço um movimento cortês com a cabeça, minha vergonha transparecendo no olhar. Tudo o que eu tinha que fazer era virar as costas e voltar ao departamento, exatamente como fizera nos últimos quinze anos. Era só virar, sair sem olhar para trás. Sem me deixar comover pelos olhos lacrimejantemente famintos das crianças.

Mas o sol estava forte, o calor sufocante, o ar deserticamente seco. A gravata agarrou-me pelo pescoço como mãos prontas para o assassinato. Não foi bondade, nem qualquer tipo de súbita consciência. Foi apenas um gesto reflexo, um instinto de viver, movido pela necessidade de respirar mais do que pela compaixão ou qualquer outro sentimento nobre. Mas ainda assim foi o gesto que alterou a ordem natural das coisas: rasguei em mil fragmentos o papel que a mulher me entregara, enquanto os olhos doídos da menina me imploravam um prato de comida. Abri minha carteira, tirei de lá tudo o que tinha, pouco menos de metade do salário recebido na véspera. Só as contas mais urgentes estavam pagas, mas sem nem pensar nisso entreguei tudo à mulher, com ordem expressa de que sumissem dali antes que os fiscais chegassem. Ela abriu a boca num rasgo que era muito mais espanto do que sorriso, depois assegurou que tinha parentes no interior e que nunca mais voltaria pra cá.

Agora olho os sapatos lançados longe e puxo com força a gravata, essa forca cotidiana. Estou livre. Amanhã haverá outro em meu lugar, sorridentemente distribuindo más notícias. Tudo continuará como sempre foi. A não ser por mim, que em breve estarei na lista dos que não tem o que comer. Mas pouco me importa. Por agora basta-me o ar fresco na traqueia.

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2 comentários sobre “Um gesto de inconsciência

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