Aventura – um conto de Ano Novo

Todos os dias faça alguma coisa de que você tem medo
Eleanor Roosevelt

— Atravessar o Hansal não é seguro — a voz dele soou tão baixo que foi preciso adivinhar as palavras perdidas no meio do vento.

— Como você sabe? — Ela olhou com firmeza seu interlocutor. O rapaz ficou pensando se haveria naquele brilho um quê de deboche. Por fim deu de ombros e olhou em volta. O vento levantava a areia do deserto em espirais douradas.

— Nunca ninguém foi lá — respondeu no seu tom tímido.

— Por isso mesmo — a garota contestou com vigor. A resposta dele reforçava sua tese.

— É perigoso, Jana, deixe disso!

O vento parou por um breve instante, como se quisesse reforçar as palavras de seu irmão. A pausa breve foi o suficiente para o sol deixar marcas na pele dos dois.

— Quantas colheitas nossa gente já perdeu, Raul?

— Como vou saber? Sempre que as chuvas atrasam a gente perde alguma coisa.

— Não perderíamos, se tivéssemos um caminho mais rápido para Myr…

— Mas não temos. Vamos adiante, Jana. Em breve o escuro chega e precisamos estar em local seguro.

O horizonte era quase tão amarelo quanto o sol. Mas um pouco para a esquerda havia uma sombra que, desde a infância, Jana se perguntava o que seria. Fazia-lhe pensar naqueles lugares assombreados de que falavam nas lendas. Saqlr, era como os antigos chamavam aquilo, mas todo mundo dizia que só existiam nas lendas.

— As tangerinas estão estragando — ela falou e puxou para si o pequeno burrico em que os frutos se abarrotavam.

— Você acha melhor separarmos o que não vai resistir à viagem?

— Acho que devemos separar tudo o que está estragando.

— Você tem razão. Vamos viajar mais rápido se deixarmos esse peso para trás. As maçãs também não me parecem muito firmes. — Puxou os sacos de pano em que os frutos estavam armazenados. Jana se apressou em tirá-los das mãos do irmão e os amarrou no burrico com as tangerinas. Inspecionou outros sacos e não encontrou nada suspeito.

— Sim, é melhor assim. — Jana saltou em seu pequeno cavalo, trazendo o burro pelas rédeas. Raul foi buscar sua montaria que estava descansando debaixo de uma árvore.

— Vamos embora — afirmou o irmão enquanto soltava seu cavalo — quanto mais tempo perdemos, mais demora para voltarmos.

— Cuide-se, Raul — a garota gritou, atiçando seu animal, e uma nuvem de areia ergueu-se atrás dela.

— Ohw, espere! Jana, a onde… O que está fazendo?

O cavalo sumiu nos novelos de areia embaralhados pelo vento. Raul correu alguns metros, aos gritos, mas retornou quando a visão ficou turva. Sua montaria, assustada com o barulho, disparou na direção da aldeia Karryr, de onde saíram no início da manhã. Apavorado, o rapaz correu atrás. Como sobreviveria se não resgatasse seu cavalo? Como chegaria a Shaq’ai sem a irmã? E o que diria a seus pais, quando finalmente retornasse para casa?

/|\

Em poucos metros Jana se arrependeu do que fez. A areia voava em torno dela de tal maneira que era impossível enxergar qualquer coisa. Cobriu nariz e boca com o véu, mas não tinha o que fazer com os olhos açoitados pelos grãos de areia. Tossiu, enroscou-se no pescoço do cavalo, que estava tão assustado quanto ela, e por pouco não deixou o burrico escapar.

Era mesmo impossível chegar a Myr indo pelo Hansal? O deserto era, de fato, um inimigo invencível? E todas as lendas sobre pessoas que chegaram à sua aldeia vindas do deserto? Eram mentiras? Histórias inventadas para entreter as crianças, como sua mãe dizia?

Que idiota eu fui! Raul vai querer me matar! Deve estar muito assustado. Por que fiz isso?

Deu meia volta com o cavalo. Quando alcançasse a estrada incitaria os animais para a corrida. Receberia uma enorme reprimenda quando o encontrasse, mas bem que merecia! Quase podia ouvir a voz irada do garoto, dois anos mais velho do que ela, e talvez por isso tão mais ajuizado. O cavalo avançava incerto, já que não era possível ver nada além do próprio focinho, e deve ter sido pela marcha reduzida que a menina custou a entender que estava perdida. Olhou a toda volta sem conseguir enxergar qualquer coisa. Isso era muito estranho! Avançou em uma linha reta, arrependeu-se, virou para o lado de onde viera e andou reto novamente. Como podia acontecer de não chegar à estrada?

Tomou um gole de água de seu pequeno cantil. A maioria das provisões estavam com Raul. Não duraria muito tempo se não encontrasse saída.

Não se desespere, tem que haver uma solução — consolou-se, respirando fundo — Desespero não ajuda em nada!

Pensou em apear, deixar os animais descansarem, mas sem um lugar em que se sentissem seguros isso seria pouco efetivo. Com dificuldade tomou mais um gole. Nada era simples naquele inferno de areia revolta. Não havia nenhuma história de alguém de seu povo atravessando o deserto. Sequer havia história de quem tivesse tentado. Isso era o mais estranho. Ninguém mais sentira esse impulso de curiosidade, que a consumia desde a infância?

Bem, agora haverá o relato de alguém que sumiu no deserto… provavelmente evitará que mais alguém tente essa idiotice — pensou num suspiro.

A areia insistia em bater em tudo, irritando os animais que, ao contrário dela, não tinham proteção de roupas por todo o corpo. Deu tapinhas leves no pescoço de Zon e disse-lhe palavras suaves no ouvido. O animal relinchou, bateu uma pata traseira duas vezes no chão enquanto o burrico resfolegava assustado. Relaxou as pernas no lombo do animal esperando transmitir confiança à montaria. Encurtou a rédea do burro, trazendo para perto de si. Precisava encontrar um jeito de voltar.

Certo, Jana, isso é diferente de tudo o que você já fez na vida. Mas é apenas isso: diferente. Acalme-se. Pense. Esse lugar é diferente dos que você conhece, mas é apenas um lugar. Areia e vento. Isso não pode ser tão mortalmente perigoso!

Será?

Será que não, mesmo?

.
.
.

Mais uma vez, pensou em descer de sua montaria. A ideia mórbida de aliviar o peso dos animais para que tivessem uma morte menos dolorosa passou como uma nuvem. Forçou seus olhos contra o açoite de vento e poeira e não enxergou nada. Deu mais um gole e sacudiu o cantil: a água não duraria muito.

Pulou para o chão, sem pensar muito. Manteve as duas rédeas firmes no pulso. Se os animais debandassem nenhum dos três sobreviveria ao deserto. Sentia vontade de chorar.

Outra vez Zon bateu a pata traseira contra a areia, impaciente. Uma nuvenzinha subiu do solo, chamando a atenção de Jana. A menina olhou incrédula para o chão e depois se deitou. Não era possível!

Ficou em pé num salto, girou o corpo olhando ao redor. A areia se agitava por todos os lados, mas não no chão!

Deitou novamente. Enxergou um chão dourado estendendo-se ao infinito. Se olhasse com calma havia de encontrar a estrada! Moveu a cabeça para todas as direções e achou ver algo mais escuro um pouco para trás. Forçou o pescoço ao máximo, depois ajeitou o tronco para o lado e… sim! Aquela sombra que sempre divisava da estrada! Era ela, e estava próxima!

Caminhou levando os animais pela guia. Abaixou-se em duas ocasiões apenas para se certificar de que continuava na direção certa. Em poucos minutos seus pés estavam sobre pequenas pedras cinzentas semelhantes aos seixos dos rios. Apanhou uma das pedras: úmida. Apertou-a entre os dedos e avançou. Seus pés deslizaram nas pedras e Jana teve que se esforçar para reencontrar o equilíbrio, sem perder as rédeas dos animais que, assustados, resfolegavam e tentavam voltar. Firmou-se naquele chão que descia ligeiro, pedrinhas despencando pelo barranco. Agora podia ouvir o som de água e não havia dúvida de que encontrara um Saqlr! Cautelosamente deu um passo adiante, e depois outro e bastou mais um terceiro para que o som do vento desaparecesse e o mais lindo cenário lhe fosse oferecido à vista. Árvores, gramas, pássaros. Árvores, gramas e pássaros em uma quantidade superior a tudo o que já tinha visto na vida! Apressou-se a descer, tão rápido quanto aquele terreno incerto permitia, os animais remanchando no medo de uma queda qualquer. Mas chegaram os três intactos ao solo, um vale cerca de metro e meio abaixo do deserto.

A Desventura de Jana, foi como chamaram aquilo, e as futuras gerações ouvirão falar que era louca e que arriscou a vida de forma irresponsável. Mas depois de reabastecer o cantil com a mais cristalina das águas, Jana acompanhou as margens do rio em um terreno que se aprofundava até sumir sob a terra. O burburinho da correnteza guiou-a pelo grotão em uma caminhada leve e fresca. Parou uma vez para descansar e dar de beber aos animais. Recostou na rocha fresca, colheu alguns pequenos cogumelos que cresciam naquelas paragens.  Sentia-se revigorada e os animais também não demonstravam cansaço. Seguiram a jornada em ritmo acelerado, animados por uma energia encorajadora. Não demorou para que o terreno iniciasse uma lenta subida e, com uma suave curva à direita, o grotão se abriu em um pequeno bosque na fronteira de Myr.

O resto foi muito simples: vendeu os frutos e o burrico no comércio local, depois galopou pela estrada em busca do irmão. Encontrou-o ao entardecer, preparando o acampamento no local costumeiro. No dia seguinte venderam o pequeno estoque e voltaram a Shaq’ai, usando o grotão como passagem. O resultado é que estavam em casa na metade do tempo esperado, e refizeram a travessia já no dia seguinte, vendendo na cidade vizinha tudo o que estava fadado a perecer, se não fosse consumido pela comunidade.

Tendo aprendido com a irmã os segredos de atravessar o Hansal, Raul organizou expedições, tornou-se guia, enriqueceu a família com a ligeireza de suas vendas e com as taxas que cobrava para auxiliar outros comerciantes. A rota moderna entre Myr e Shaq’ai formou-se dessa maneira, a movimentada Janavia, que só se tornou realidade porque alguém ousou dar um passo além da fronteira conhecida.

Quanto a Jana, a menina se apartou da expedição na terceira vez em que atravessavam o deserto. Nunca mais foi vista, mas conta-se que até o fim de sua vida, Raul recebia estranhas mensagens nas noites de lua cheia, e ninguém na região do Kohn duvida que Jana, a Aventureira, vive para sempre.

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4 comentários sobre “Aventura – um conto de Ano Novo

  1. Natália Souza disse:

    Como sempre Diana Rocco nos surpreende! Para mim, o melhor trecho: “isso é diferente de tudo o que você já fez na vida. Mas é apenas isso: diferente. ”
    Ele me trouxe uma grande reflexão acerca de situações inusitadas, que a princípio nos desestabilizam.
    Obrigada pelo presente de ano novo!

    Curtido por 1 pessoa

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